Linhas de Pesquisa

Mulheres & Filosofia


Resumo da Proposta:

A proposta de um projeto de extensão acerca do tema 'Mulheres na Filosofia' visa, antes de mais, colmatar uma lacuna grave na forma como os cursos de Filosofia (de graduação e pós-graduação) estão estruturados. Com efeito, há uma ausência das mulheres na filosofia, e esta ausência pode ser compreendida em vários sentidos: uma ausência (relativa) de mulheres nos departamentos e cursos existentes em Filosofia; uma ausência na referência a mulheres filósofas, na elaboração de ementas e escolha de conteúdos; uma ausência de debate acerca do género e da sua relação essencial no processo de constituição da própria atividade filosófica. Ao identificar as várias dimensões desta ausência, torna-se urgente compreende-las, atribuir-lhes um sentido e contrapor as justificativas do discurso existente à legitimidade efetiva das mesmas.

O objetivo deste projeto é triplo: trazer para a visibilidade do discurso e da prática as mulheres na Filosofia, i.e., as mulheres que fazem e fizeram filosofia; pensar a relação entre ausência e invisibilidade: com efeito, poderíamos dizer que as mulheres nunca estiveram ausentes da filosofia, mas apenas invisíveis, forçando-nos a questionar o porquê dessa invisibilidade; compreender a importância vital da questão do género na forma como a Filosofia se constitui enquanto disciplina e enquanto prática. Esperamos trazer o debate para dentro do curso de Filosofia, assim como outros cursos de graduação e pós-graduação da UFMS, assim como ampliar a discussão acerca das relações entre género, igualdade e poder à sociedade civil nas suas diferentes modalidades (movimentos sociais, sindicatos, ONGs, entre outras).

Informações Relevantes para Avaliação da Proposta:

O projeto será estruturado de forma a promover palestras regulares sobre o tema geral de 'Mulheres na Filosofia'; organizando também cursos intensivos que criarão um espaço privilegiado para debate acerca do tema, de forma interdisciplinar, convidando ao amadurecimento da prática filosófica, na sua vertente mais crítica e reflexiva, dos participantes.

 Justificativa

Porque o tema 'Mulheres na Filosofia' é pertinente? Porque o devemos tomar como questão? De que forma devemos problematizar este tema? Penso que há pelo menos três perspetivas possíveis de análise: a primeira, reflete sobre o problema da atividade da filosofia feita por mulheres. Sem entrar aqui no que constitui efetivamente esta atividade, e partindo do principio de que a filosofia é uma busca pela sabedoria e um mergulho profundo na reflexão acerca do sentido das coisas, a começar pelo sentido de nós mesmos, penso que todos concordariam que essa experiência – de reflexão e busca de sentido – é uma experiência fundamental da existência humana, partilhada por homens e mulheres. Mas então, por que sobretudo os homens conferem visibilidade a essa atividade? Aqui, poderíamos olhar para a própria história da filosofia e tentar identificar as formas pelas quais os vários filósofos – homens – justificam ou legitimam a ‘exclusão’ das mulheres desse domínio especifico e privilegiado de pensar. Olhando para a história percebemos que por convenção ou porconstrução social, as mulheres foram progressivamente excluídas de certas atividades, o que de alguma forma conduz ao estado de coisas atual e o explica, porém não o justifica. Mas quando dizemos que x (neste caso, a diferença de género) é uma construção social, o que queremos de fato dizer com isso? Será que estamos a sugerir que x é uma ilusão, mesmo que parcial? E se fosse este o caso, estaríamos sugerindo que a questão de ‘género’ é ilusória, fictícia? E a questão de ‘raça’, que é também construção social? Como diz Haslanger, “qual é a ilusão (se é que há) e qual a realidade nas construções sociais?’ (HASLANGER, 2012, p.5) Se olharmos para os textos, sabemos que muitas vezes estes são usados como veículos de legitimação de instituições racistas e/ou sexistas, e que essa legitimação assenta numa visão de ‘natureza humana’ especifica, onde as mulheres e os não-brancos são inferiores. (idem) Rousseau foi talvez o autor moderno que abriu um campo de análise filosófica e social até então inexistente, a saber, o campo da análise da sociedade, como objeto particular de estudo. Com efeito, partindo da premissa de que a natureza nos faz iguais, Rousseau mostra que não há situação de dominação existente ou hipotética que possa reclamar qualquer tipo de legitimidade, já que a lógica de dominação só se afirma à custa da desigualdade, logo, da renúncia e alienação de algo que é inalienável - a liberdade. Porém, como também percebemos por uma leitura atenta de Rousseau, o problema é que as desigualdades são ‘naturalizadas’, são incorporadas como uma segunda natureza, que é preciso desconstruir para depois construir de novo. E isso obriga-nos a confrontar a relação entre construções sociais e fatos naturais. Do ponto de vista do género, isso significaria compreender que tipo de papel desempenha este conceito (e suas práticas correlativas) e que tipo de fundamento (que não a ‘natureza humana’) lhe podemos dar. Como leitores de textos filosóficos sabemos que outra tendência de (os) homens se justificarem e legitimarem a sua visibilidade se prende com a dicotomia razão/paixão, na qual os homens teriam o monopólio ou o privilégio da razão e as mulheres seriam mais determinadas pela paixão ou emoção. Assim, poderíamos pensar que a expressão visível do pensamento filosófico se consolida na modernidade a partir de uma depuração do ‘ser humano’ , privilegiando a razão sobre outras esferas – o que será, por sua vez, tema de inquérito por parte de autores como Horkheimer, Adorno, Marcuse, entre muitos outros, mas que poderia ser levada ao extremo no que diz respeito ao preço que tivemos de pagar pela ‘racionalização’ em detrimento da ‘paixão’. Enfim, apenas para dizer que esta é uma abordagem possível – a da participação das mulheres na atividade filosófica, e o desdobramento desta participação na lógica de visibilidade/invisibilidade; inclusão/exclusão; razão/paixão. Uma segunda linha de inquérito seria a da representação das mulheres na filosofia. E aqui também há um desdobramento: por um lado, de que forma as mulheres são representadas. A representação supõe o trazer à presença o que está ausente, logo, tratar-se-ia de perceber de que forma as mulheres como ausência, ou como aquilo ou aquelas que estão ausentes são representadas, e esta representação pode ser feita por homens ou por mulheres. Se é feita por homens, como justificar essa representação, ou de que forma essa representação é legitima, se o homem é diferente da mulher? Se é feita por mulheres, o problema é idêntico, embora por outro ângulo: de que forma uma, ou algumas mulheres representam as mulheres que permanecem ausentes? Aqui teríamos o problema da legitimidade e da universalidade. Mas na realidade estas questões abrem para uma outra, mais profunda e anterior a elas: é possível oferecer uma teoria acerca da ‘mulher’? É possível postular um sentido, atribuir um significado ao ser mulher? Como determinar esse sentido? E de que forma isso não condiciona os sentidos possíveis desse mesmo conceito e experiência, de ser mulher? Que tipo de abordagem devemos adoptar para trabalhar e refletir acerca de categorias sociais, de termos que são complexos e que se abrem a uma contestação perpétua de sentido? Este conjunto de questões remeter-nos-ia para uma longa digressão acerca da forma como as categorias sociais são incorporadas, no sentido literal de trazidas para o corpo, assimiladas no corpo, traduzidas pelo corpo; e acerca dos esquemas de subordinação e dominação institucionalizados e naturalizados. Uma terceira linha de pesquisa seria mais empírica, mais sociológica e política. Partiria de uma analise de fatos, por exemplo, de quantas mulheres existem hoje em cursos de filosofia de graduação e pós-graduação, no Brasil e no Mundo; de quantas mulheres lideram grupos de pesquisa em filosofia; de quantas mulheres se intitulam ‘filósofas’. E aqui seriamos em última analise levados ao problema de como ler os fatos. O desdobramento natural destas várias linhas de pesquisa apontam para a necessidade de criação de um espaço onde todas estas questões e problemas possam ser discutidas. Por isso, embora o tema seja 'Mulheres na Filosofia', percebemos que depressa somos conduzidos a problemas estruturais que afetam todos os indivíduos - homens e mulheres - nomeadamente, a forma como as relações sociais se constituem, se justificam e se perpetuam; o papel dos discursos na tentativa de legitimação das práticas; o desafio da construção da subjetividade na teia social definida por relações de poder, entre muitos outros. O curso convida a um engajamento crítico e reflexivo por parte de alunos e professores de Filosofia, mas estendido a todas as outras áreas: psicologia, sociologia, história, educação, economia, direito, entre outras.