Publicações

Multidão, massas populares e democracia

Formas de governo declaradamente elitistas – como monarquias, aristocracias, oligarquias etc. – deixaram aos poucos de ser impostas sobre os povos com a expansão das democracias representativas. Entretanto, a depreciação das massas populares, julgadas incapazes por Platão, Aristóteles e outros pensadores, ganhou novo impulso em 1895, com um estudo de Gustave Le Bon. Desde então as multidões foram desqualificadas por autores como Freud e Ortega y Gasset. A ideia de que massas populares são incapazes de expressar uma vontade coletiva coerente e organizada é martelada no imaginário social, sustentando que aglomerações produzem desordem e não merecem ser ouvidas politicamente. Não há porque negar que a multidão pode ser assustadora, em especial, quando furiosa. Mas focar nos aspectos negativos da ação coletiva, sem sequer examinar as razões da cólera do povo, parece estratégia oportunista direcionada à recusa de expressões massivas da vontade popular. Consegue-se com isso rejeitar manifestações políticas objetivas das massas, mesmo quando justas e pacíficas. Busca-se desse modo desarticular os grandes grupos, e mais ainda, isolar as pessoas dos núcleos aos quais pertencem ou com os quais têm maior afinidade. Obtêm-se mônadas políticas, reagrupáveis somente sob a bandeira dos partidos políticos , concebidos como instrumentos privilegiados da democracia. Não desconsidero os ganhos obtidos ao dar a cada pessoa voz própria, livre de mecanismos sociais opressivos, como a tutela machista no núcleo familiar, a dominação econômica decorrente de vínculos trabalhistas, ou a violência pura. O preceito democrático ‘uma cabeça, um voto’, quando implantado por meio do pleito universal e secreto, visa evitar interferências indevidas nas escolhas individuais. Tal benefício ocorre apenas em tese. Na prática, ninguém expressa sua vontade com toda essa liberdade. Tem-se que optar por uma lista predefinida de candidaturas, e de modo geral, tais nominatas vinculam-se aos interesses partidários, ou melhor, ao desejo de quem os financia . Ora, partidos políticos são organizações altamente oligárquicas, conforme mostraram Michels (2015 [1915]) e Duverger (2012 [1951]). Dessa maneira, em vez do poder popular prometido pela democracia, recai-se numa dominação elitista, porém dissimulada pela intermediação das urnas . Na realidade, trocaram-se as formas arcaicas que acorrentavam o povo por gaiolas douradas, em vários modelos, os chamados graus de democracia, eufemismo para a ausência de igualdade política e de poder popular. É esse conflito que aqui me interessa, entre as vontades individuais e coletivas, das pessoas reais e fictícias. Primeiro resenharei algumas das objeções centrais por meio das quais se construiu a desqualificação das massas populares, uma descrição negativa, que conduz à inaptidão do povo reunido como fundamento democrático, apesar de na sua origem a democracia ser exatamente isso, multidão reunida para decidir. Em segundo lugar, defenderei que as multidões devem ser entendidas como manifestações do poder popular, mesmo quando agem por meio de protestos. É uma etapa positiva, de legitimação de formas de organização social independentes do Estado. Considero que ações coletivas são fundamentais para a vida política das pessoas. Entram aqui questões de reformulação da democracia, e também de oposição ao domínio do econômico sobre o sociopolítico. Depois, contrastarei o repúdio às massas populares com o acolhimento servil às massas monetárias, ou seja, o tratamento repressivo dado a agrupamentos de pessoas físicas em confronto com pessoas jurídicas. Concluirei lançando algumas reflexões provocativas acerca da democracia sem povo. Clique aqui